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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC)

O artigo de hoje é sobre outro transtorno psiquiátrico que, muitas vezes, passa anos sem ser diagnosticado. É muito comum que as pessoas tenham vergonha de falar sobre seus sintomas ou até, quando eles iniciaram muito cedo, sejam acostumadas com eles e praticamente não os percebam como um problema.
O Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) tem uma prevalência ao longo da vida de aproximadamente 2% e começa entre a adolescência e o início da vida adulta ou mesmo na infância. Homens e mulheres são igualmente afetados.

O que são obsessões?
As obsessões podem ser pensamentos, impulsos ou imagens que a pessoa reconhece serem originados de sua própria mente. São  intrusivos, inadequados e repetitivos e causam grande sofrimento. Em consequência, a pessoa tenta suprimir, ignorar ou neutralizar os mesmos com outro pensamento ou uma ação.
Exemplos de pensamentos obsessivos: “minhas mãos estão sujas”, “fechei a janela?”, medo de fazer algo sem querer.

O que são compulsões?
As compulsões são os comportamentos repetitivos (ou rituais) que o indivíduo executa voluntariamente para aliviar a angústia provocada pela obsessão. Podem ser ações (como lavar as mãos repetidamente, verificar se fechou a janela várias vezes) ou atos mentais (pensar frases para anular uma “frase ruim”, p. ex.). São comportamentos claramente excessivos ou não têm relação com o que pretendem neutralizar (não fazem sentido).

São apenas estes os sintomas obsessivos e compulsivos?
Não. Existem muitos tipos de obsessões e compulsões e de combinações entre elas. O TOC pode se apresentar de forma completamente diferente de uma pessoa para a outra.
Os tipos mais frequentes de obsessão são: agressivas, sexuais, religiosas; sujeira e contaminação; simetria.
E de compulsão: verificação, limpeza, ordenação.

Evolução do TOC
O início dos sintomas na infância é mais comum nos meninos. Na adolescência, o início do quadro é mais comum nas meninas. Na idade adulta, não se encontra uma diferença na prevalência do TOC entre os dois sexos.
Na maior parte dos casos, o curso é crônico, com períodos de melhora e piora ao longa da vida.

O que causa o TOC?
Não há um fator único causador do TOC.
Estudos indicam que existe uma importante influência genética: o risco de ter TOC aumenta de 2 para até 17% se a pessoa tiver um familiar de 1º grau afetado.
Outros estudos indicam associação com eventos estressores/traumáticos e a febre reumática.

                Transtorno mentais associados (comorbidades)
                As comorbidades são muito frequentes no TOC, especialmente as que envolvem sintomas depressivos e ansiosos. Por exemplo: depressão, transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno de pânico ou agorafobia, fobia social, fobias simples e fobias específicas.
                 
Como é feito o tratamento do TOC?
Atualmente, os tratamentos indicados para o TOC são medicações específicas e/ou psicoterapia (TCC). Estudos sugerem que a combinação dos dois tratamentos é melhor.
Existem vários tipos de medicação disponíveis para o tratamento do TOC. A resposta pode ser lenta e gradual e o tratamento deve ser mantido por período mais prolongado.


terça-feira, 10 de julho de 2012

Transtorno Bipolar

                Hoje vou falar sobre um transtorno psiquiátrico que vem ganhando cada vez mais atenção, mas muitas vezes de forma equivocada. Espero que este artigo ajude a compreender melhor o que é o Transtorno Bipolar. 

                A chance de desenvolver Transtorno Bipolar ao longo da vida é de 1% e não há diferença entre homens e mulheres. O risco é bem menor do que para a Depressão (15%).


O que é Mania?
                Para entender o que é o Transtorno Bipolar (TB), primeiro é preciso conhecer o quadro chamado de Mania. Um episódio maníaco é praticamente o contrário de um episódio depressivo.

O paciente fica com o humor muito elevado, eufórico, incomumente bom, às vezes alternando com irritação excessiva – isto é percebido claramente por quem conhece o indivíduo, embora ele ache que está ótimo. A auto-estima também fica aumentada, levando a pessoa a fazer coisas que normalmente não faria, como escrever livros sobre assuntos que não domina ou conversar longamente com estranhos na rua.

O sono diminui muito e a energia aumenta, assim como a vontade de falar e a velocidade da fala, muitos dizem que os pensamentos correm. A maioria se envolve em diversas atividades, muitas vezes perigosas, por deixar de pensar nos riscos. Costuma haver um aumento da sociabilidade, da sexualidade, das compras (mesmo sem dinheiro para pagar), direção imprudente e vários outros comportamentos incomuns para a pessoa.

                Podem ocorrer sintomas psicóticos, como delírios de grandeza – por exemplo: crença de que é o presidente. Esta perda da realidade reverte totalmente com a melhora dos demais sintomas.

                Em um episódio maníaco, há um prejuízo muito importante nas atividades normais do indivíduo, sendo necessário afastamento das mesmas e, muitas vezes, internação hospitalar.

                O episódio Hipomaníaco é uma forma mais leve de mania, em que não ocorre tanto prejuízo para as atividades habituais do indivíduo.

                O episódio Misto é aquele em que ocorrem os sintomas de Mania e de Depressão juntos.       


O que é Transtorno Bipolar (TB)?
                O TB tipo I é aquele em que ocorrem um ou mais episódios Maníacos ou Mistos. É muito comum que também tenham ocorrido um ou mais episódios Depressivos (80-90% dos pacientes). 

                O TB tipo II é aquele em que ocorrem um ou mais episódios Depressivos e pelo menos um episódio Hipomaníaco.


O que causa o TB?
                Estudos genéticos feitos até o momento sugerem que parentes em primeiro grau de portadores do TB têm um risco quase 10 (dez) vezes maior do que a população geral de apresentar o transtorno. 

                Além da influência genética, estudam-se alterações na estrutura cerebral, nos neutransmissores (comunicação entre os neurônios), em processos inflamatórios do organismo e em fatores de estresse.


Como é feito o tratamento?
                Há diversos medicamentos disponíveis para o tratamento do Transtorno Bipolar. Todos buscam a estabilidade do humor: quando não se está nem deprimido, nem em mania ou hipomania. 


sábado, 28 de abril de 2012

Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)

                No artigo anterior, falei sobre a ansiedade como experiência normal de todos os seres humanos. Agora, vou escrever sobre a ansiedade que se torna uma patologia, aquela ansiedade que passou do normal e começou a prejudicar suas vidas. 

A chance de uma pessoa desenvolver  Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) ao longo da vida é de aproximadamente 5%, bastante alta. Entretanto, estima-se que apenas um terço dos indivíduos que sofrem de TAG procuram o psiquiatra para tratamento.


                O que é TAG?
No TAG, a ansiedade é persistente, excessiva, relacionada a vários aspectos da vida (trabalho, família, vida social), ocorre quase todos dias e afeta a vida da pessoa de forma negativa. Apesar de sentir que a ansiedade é excessiva, exagerada para a situação que a provoca, o indivíduo a descreve como difícil de controlar.

A preocupação, em geral, vem em forma de uma apreensão ou sensação constante de que algo negativo ou “o pior” vai acontecer. As situações comuns do dia-a-dia são quase todas vividas dessa forma. Se alguma coisa pode dar errado ou certo, “vai dar errado”. A pessoa se sente ansiosa porque os amigos vêm à noite jantar, quando vai fazer um exame médico, se o filho sai de carro, enfim, é constante a preocupação.

Junto com a ansiedade, há sintomas físicos, que podem variar ao longo do tempo: tremores, tensão muscular, cansaço, dor de cabeça, palpitações, suores, tonturas, ondas de frio ou calor, falta de ar, irritação, insônia, dificuldade para se concentrar, “brancos” na mente, alterações gastrointestinais (como diarréia).

Por causa desses sintomas físicos, a maioria dos pacientes procura clínicos gerais, cardiologistas, gastroenterologistas e outras especialidades médicas em vez do psiquiatra para o tratamento.

Os primeiros sintomas do TAG geralmente surgem no final da adolescência ou início da vida adulta, podendo se tornar crônicos.  É muito comum os pacientes dizerem “sempre fui assim”, por já nem lembrarem de uma época em que não eram ansiosos.


Quais os riscos de ter TAG?
Quando uma pessoa tem TAG, o risco de ter algum outro transtorno psiquiátrico é de 50 a 90%. É muito frequente os pacientes com TAG só chegarem ao consultório depois que desenvolveram depressão ou pânico, por exemplo.

Além do pânico e da depressão, há um risco elevado de desenvolver abuso ou dependência de álcool e drogas (por exemplo, o paciente que bebe para aliviar a ansiedade).

A presença do TAG também parece aumentar o risco de desenvolver problemas cardíacos, gastrointestinais, endocrinológicos (como diabetes), pulmonares e dores crônicas.


O que causa o TAG?
Não há uma única causa definida para o TAG. Vários fatores associam-se para o desenvolvimento do transtorno. Acredita-se que um conjunto de: traços de personalidade e temperamento (indivíduos com uma predisposição mais ansiosa), alterações em neurotransmissores cerebrais, fatores genéticos e situações de vida.


Existe tratamento?
Atualmente, o tratamento indicado para o TAG é uma combinação de medicação e alguma forma de psicoterapia (há vários tipos).

O tempo de tratamento varia para cada paciente, por isso deve ser feito um acompanhamento adequado, tanto com o psiquiatra quanto com o psicólogo (terapia).



Neste artigo, abordei um transtorno psiquiátrico que, apesar de afetar muito a qualidade de vida das pessoas, ainda recebe pouca atenção e tratamento. O sintomas do TAG - tanto físicos quanto psíquicos - são tratáveis desde que sejam diagnosticados corretamente.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Depressão: Causas e Recaídas


O que causa a depressão?

Esta é outra dúvida muito frequente no consultório. Tanto os familiares quanto o paciente nos questionam porque a depressão começou e se, removendo a causa, ela se resolverá

A depressão é um transtorno psiquiátrico com múltiplas causas, não sendo possível indicar apenas um fator causador. É uma combinação de fatores que ocorrem num certo momento da vida da pessoa que vai levá-la a desenvolver uma depressão.             


Quais são estes fatores?

- Acontecimentos na vida: um evento estressante costuma estar associado ao primeiro episódio depressivo. Os próximos episódios tendem a começar espontaneamente, sem acontecimentos causadores. O primeiro quadro de depressão também pode começar sozinho, o que causa muita confusão para o paciente e sua família, que ficam com a dúvida “se está tudo bem, por que ele(a) está assim?”.  Exemplos de eventos estressantes: perda de entes queridos, pouco apoio da família e amigos, abuso físico/sexual na infância, desemprego, separação, entre outros.

- Genéticos: a chance de ter depressão aumenta de 2 a 3 vezes se a pessoa tiver um parente de primeiro grau já afetado. Acredita-se que a influência genética seja de até 50%, ficando o restante para os outros fatores (estressores, ambientais, etc).

- Ambientais: dieta, uso de álcool, uso de drogas, remédios para emagrecer.

- Biológicos: alterações na comunicação entre os neurônios (neurotransmissores cerebrais), alterações do sono e da regulação do relógio interno (ritmo circadiano).

- Psicológicos: personalidade, relacionamentos interpessoais (com outras pessoas).

                Como podemos perceber, alguns destes fatores não temos como mudar (a genética e o funcionamento do cérebro). Outros são mais facilmente modificáveis, como o uso de álcool e drogas. Mas o que fazer em relação aos acontecimentos de vida e aos relacionamentos, muitas vezes difíceis, com outras pessoas? Aí é que surge outra pergunta frequente:



                Se pudermos eliminar estes fatores de estresse, a depressão vai passar sozinha?

                É importante lembrar que muitos dos fatores de estresse envolvidos com o início de episódios depressivos resolvem-se por si sós, com o passar do tempo, como a perda de um ente querido. Não é algo que possa ser “removido”. 

Talvez isto ajude a compreender que uma depressão não tratada, independente de removermos/melhorarmos os fatores causadores, dura de 6 meses a um ano. Quando tratada, tende a durar 3 meses. 

Independente do que causou a depressão, depois que a pessoa já está deprimida, é muito importante iniciar o tratamento. Os sintomas vão melhorar muito mais rápido, aliviando o sofrimento, diminuindo o risco de suicídio e melhorando a qualidade de vida. Além disso, o tratamento previne as recaídas e também a depressão crônica.


Qual é a diferença entre recaída, recorrência e depressão crônica?

A recaída é o que ocorre quando o paciente volta a apresentar sintomas quando estava se recuperando ou já estava bem por até seis meses. Isto ocorre por diversos motivos, por exemplo ao parar de tomar o medicamento antes do recomendado pelo médico.

No caso da recorrência, o paciente ficou mais de 6 meses sem sintomas e depois voltou a apresentar o quadro depressivo. Às vezes ela acontece enquanto o paciente ainda está em tratamento e, outras, muitos anos depois.

As recorrências são comuns nos pacientes com depressão. Mais ou menos 25% das pessoas voltam a ter depressão dentro de 6 meses. Se um paciente já teve depressão duas vezes, há 70% de chance de ter uma terceira vez. 

A depressão é considerada crônica quando o paciente apresenta sintomas contínuos por, pelo menos, dois anos. 


Neste artigo, quis ressaltar os diversos fatores que causam a depressão. Além disso, alertar para o fato de que quem já teve depressão antes tem mais risco de ter novamente, sendo muito importante manter um acompanhamento médico adequado.
Os outros artigos da série são:
Primeira parte: Depressão: Sintomas
Terceira parte: Depressão: Diagnóstico e Tratamento